Bluetooth Auracast é uma tecnologia de transmissão de áudio que permite a partilha de som de um para múltiplos dispositivos simultaneamente, sem necessidade de emparelhamento direto. Mas como funciona esta tecnologia de partilha de áudio sem fios?
O Bluetooth Auracast é uma das maiores evoluções do áudio sem fios desde a popularização dos auscultadores Bluetooth. Ao contrário do tradicional modelo de ligação ponto-a-ponto, em que um dispositivo emparelha diretamente com outro, o Auracast introduz uma abordagem completamente diferente, a transmissão de áudio broadcast.
Bluetooth Auracast: como funciona?
Na prática, isto significa que um único emissor pode enviar som para múltiplos recetores compatíveis ao mesmo tempo, sem processos demorados de emparelhamento e sem as limitações típicas do Bluetooth clássico.

A tecnologia nasce da norma Bluetooth LE Audio, introduzida com o Bluetooth 5.2, tirando partido de um consumo energético reduzido e do codec LC3, que oferece melhor eficiência e qualidade sonora mesmo a baixas taxas de bits. Na prática, o processo funciona de forma bastante intuitiva. O transmissor, como um smartphone, tablet, ou qualquer dispositivo compatível, inicia uma transmissão Auracast.
Esta transmissão é anunciada por Bluetooth, quase como se fosse uma “rede” disponível, contendo todas as informações necessárias para que outros equipamentos a reconheçam. Auscultadores, colunas ou aparelhos auditivos com suporte para LE Audio conseguem detetar estas transmissões e ligam-se a elas com apenas um toque, sem códigos, listas de emparelhamento ou passos adicionais.
O resultado é um sistema que permite uma enorme flexibilidade. Várias pessoas podem ouvir o mesmo conteúdo em simultâneo, cada uma com os seus próprios auscultadores, sem interferências e sem dividir qualidade.

Em espaços públicos, o potencial é ainda maior, museus podem transmitir áudios de exposições diretamente para os visitantes, cinemas podem emitir som para quem precisa de maior clareza, ginásios podem disponibilizar transmissões das diferentes TVs do espaço e conferências podem oferecer múltiplos canais com interpretações em vários idiomas. Tudo isto sem equipamentos profissionais dedicados ou sistemas tradicionais.
Bluetooth Auracast e a acessibilidade
O Auracast também representa um avanço significativo na área da acessibilidade. Pessoas com dificuldades auditivas podem receber áudio diretamente nos seus aparelhos auditivos compatíveis, eliminando ruído ambiente e melhorando a compreensão da fala. Esta democratização do áudio assistido pode tornar-se um novo padrão em locais públicos, funcionando como uma espécie de legendas sonoras personalizadas.
Ainda assim, estamos perante uma tecnologia que está a dar os primeiros passos. A lista de dispositivos compatíveis ainda é limitada e depende da adoção mais ampla do Bluetooth LE Audio pelos fabricantes. Smartphones, auscultadores e colunas lançados antes de 2023, regra geral, não têm hardware preparado para suportar o novo protocolo.

Mesmo entre os aparelhos mais recentes, nem todos incluem suporte ativo, obrigando a atualizações de firmware ou a revisões de hardware específicas. Além disso, o alcance continua dependente da potência do transmissor, sendo que em cenários mais exigentes poderá ser necessário equipamentos dedicados para cobrir áreas maiores.
Auracast: o áudio partilhado mais versátil
No entanto, é uma tecnologia que ainda tem alguns desafios. Como as transmissões Auracast podem ser públicas, qualquer utilizador com um dispositivo compatível pode aceder ao áudio disponível naquele espaço. Por isso, conteúdos sensíveis ou privados terão sempre de recorrer à transmissão privada, um modo opcional que continua a exigir autenticação.
Porem, com o avanço da adoção do Bluetooth LE Audio e com a chegada de mais equipamentos preparados para esta nova geração, o Auracast tem tudo para se tornar num padrão global. É uma tecnologia que não melhora apenas a qualidade e eficiência do áudio, mas redefine a própria forma como o partilhamos. Se a indústria abraçar este conceito de broadcast Bluetooth, a experiência sonora em espaços públicos e até em nossas casas, poderá transformar-se por completo.